O Brasil e seus vizinhos o portunhol perigoso e as redes sociais

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Claudio Budnikar葡萄牙語
2016年12月6日
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10 分鐘
Um Argentino no Brasil

Sou um programador de computadores argentino que mora com sua família desde o ano 2002 na cidade de Florianópolis no sul do Brasil.

Responsável pela criação e constante crescimento de uma guia de palavras e frases que trazem problemas na comunicação entre as pessoas que falam na língua portuguesa e as que falam espanhol muito especialmente quando aparecer em cena o famoso “portunhol”, essa mistura de espanhol e português que tem a característica de ajudar aos que sabem pouco ou nada da outra língua, mas quando extrapolado provoca situações quase sempre engraçadas e algumas outras bem mais graves como, por exemplo, o preconceito e a discriminação.

Depois de anos juntando anedotas próprias de conhecidos e escrever tudo num caderninho criei um arquivo digital, passou por várias redes sociais e hoje tenho uma página muito visitada e comentada no Facebook www.facebook.com/hispanoluso.

  • Por que o Brasil?

Por muitas razões, com o passar do tempo muitas delas se mostraram como acertadas e outras não. Hoje posso asseverar que a principal foi recuperar o “espírito do pioneiro”, esse pelo qual um trabalha duro e luta pelas suas ideias e direitos enquanto tudo pareçe ser mais difícil.

Junto com minha família morávamos felizes na cidade de Buenos Aires em Argentina com casa e carro próprios e trabalho como programador de computadores razoavelmente estável assim como algumas atividades feitas por puro prazer como era no meu caso, o treinamento e ensino de Artes Marciais.

Por muitos anos vínhamos de férias ao Brasil, especialmente ao estado de Santa Catarina que por fazer fronteira com a Argentina estava perto o suficiente para vir de ônibus sem grandes despesas e também por ter umas praias muito bonitas, gente amável e simpática sempre foi uma espécie de bálsamo e promessa do tipo: “e se vivêssemos lá?”.

Um dia decidimos, com minha esposa e nossos dois filhos pequenos, trocar essa sensação de acomodamento por outra baseada nas dificuldades do imigrante e a necessidade de “trabalhar em dobro” para obter as coisas que lá tínhamos mas não valorávamos pela rotina e os hábitos. Posso resumir dizendo que o Brasil foi nossa escolha, por que conhecíamos e gostávamos, estava a nosso alcance financeiro e embora nós oferecesse as suficientes diferencias sociais e culturais como para despertar nosso “espírito de pioneiro” não era uma opção tão radical como outros países mais distantes tanto geográfica como culturalmente.

  • Os primeiros tempos

Hoje olhando para trás 12 anos, vejo sim que tivemos dificuldades, mais problemas de adaptação dos que pensávamos ter e coisas que não esperávamos tanto das boas como as ruins.

Foi bastante difícil obter a documentação legal, pois então não existiam os acordos entre Argentina e Brasil que hoje facilitam tanto as coisas e permitem, por exemplo trabalhar legalmente com carteira assinada, ter uma conta no banco e documentos do Brasil.

Também passamos por um período, típico de todo imigrante, de desilusão onde começávamos a perceber que o trato como morador não era tão carinhoso como o que recebemos como turistas.

Por outro lado fomos descobrindo também que certas coisas que nos pareciam esquisitas ou impossíveis não eram tão impossíveis de alcançar e aos poucos, olhando o jornal todos os dias, participando nas reuniões de pais nas escolas de nossos filhos e indo de compras nas feirinhas da cidade nossas cabeças passaram a estar mais em sintonia com as costumes e pensamentos dos habitantes de nosso novo pais.

Foi difícil sim, mas podemos dizer que nunca fomos maltratados por causa de nosso sotaque ou nacionalidade e embora algumas de nossas expectativas fossem exageradas, sempre desfrutamos da receptividade, amabilidade e paciência típicas dos Brasileiros.

-A adaptação ao idioma

Eu tinha estudado um bom período com uma professora de português antes de viajar.
E pensava que sabia muito mais do que realmente sabia.
Depois da segunda vez que me falaram: “o espanhol não é tão difícil assim” quando eu tinha certeza de ter falado um português perfeito, comecei a perceber que muita da gente com a que eu conversava nem sequer percebia que eu estava tentando falar português.

Além de misturar muitas palavras em castelhano e montar as frases em português seguindo a lógica do idioma espanhol, meu sotaque era tão forte que meu esforço nem sequer era percebido pelos ouvintes.

Claro que não foi assim para todos, meus filhos de dois e sete anos nesse então, em bem pouco tempo já não eram mais reconhecidos como estrangeiros, e pelo fato que na minha casa todos falávamos em espanhol conservaram também a fluidez e o vocabulário castelhano sem nenhuma dificuldade para mudar de uma para outra língua com uma correção que eu com mais de 40 anos então não podia nem sonhar.

Outra coisa que percebi foi que geralmente era muito mais fácil para um brasileiro dominar o espanhol (inclusive a pronúncia) do que era para nós dominar o português.

Constantemente ouvia na rádio: “vai falar conosco o professor e doutorado fulano de tal há mais de 30 anos titular da cátedra de tal coisa.” e era o cara falar “Boa Tarde” para perceber que era Argentino, embora morasse e trabalhasse no âmbito intelectual por mais de 30 anos no Brasil.

Meu chefe sempre me falava, quando me ouvia conversando com um cliente pelo telefone, “Claudio está falando espanhol” e eu jurava que não, mas depois não foi só meu chefe, senão meus filhos também me diziam “Pai você está misturando os idiomas” cada vez mais gente me falava o mesmo e como eu não sou teimoso terminei por aceitar que realmente, embora eu não o percebesse que meu português era muito deficiente e muitas vezes nem sequer era português.

Chegado esse ponto comecei a reconhecer que embora meu vocabulário fosse bastante amplo, e minhas construções gramaticais fossem pensadas e montadas em português se não fizesse um esforço por melhorar meu sotaque todos os progressos anteriores ficavam invalidados.

Ai começou uma nova luta que ainda não tenho terminado (e estou muito longe disso) por melhorar minha pronuncia.
De fato hoje estou me preparando para o exame de proficiência em língua portuguesa (CELPE-BRAS) e os gabaritos de estudo me mostram que ainda tenho um enorme caminho por percorrer antes de puder dizer “Eu falo português”.

Tudo isso me fez valorar mais ainda a paciência que tiveram comigo os meus interlocutores em todo este tempo de vida que levo no Brasil.

-Destas experiências deve ter nascido o HISPANOLUSO.

Exatamente, eu era (e ainda sou) o típico chato que a cada “descobrimento” de uma palavra, frase ou comportamento que fosse confuso na comunicação português-espanhol queria rapidamente escreve-la (antes num caderninho hoje no telefone) para não me esquecer dela e seus diferentes significados.

Algumas vezes era a pronúncia, a escrita outras a estrutura de uma frase.
Algumas eram engraçadas, outras técnicas.
Umas tinham graça só para quem fala português outras só para quem fala espanhol. Mas tudo era armazenado, documentado e classificado.
Assim passou a ser um registro aquela situação quando ministrando uma aula de Artes Marciais para um grupo de alunos Brasileiros falei: “se houver uma pelea” e ninguém sabia do que estava falando até que um deles (gaúcho de Porto Alegre) falou:”ele quer dizer Peleja ou seja Briga” os demais (cariocas, paulistas e mineiros) lhe disseram : “Peleja? isso é Gauchês em meu português é Briga” e eu começava a compreender que minha tarefa não ia ser nada fácil.
Palavras conhecidas como exquisito (saboroso em espanhol) e esquisito ou estofado(carne de panela em espanhol) foram aparecendo aos montes.E mais refinadas apareciam nas situações mais inesperadas como ouvir na rádio que “O juiz está apurando os fatos” (apurar em espanhol significa apressar) e eu pensava que o juiz estava fazendo que as coisas acontecessem mais rápido.
Sempre que aparecia uma situação assim comentava ou com minha família ou com meus colegas de trabalho, que também eram gaúchos e por isso fontes de muitas mais confusões que de respostas.
Assim o meu acervo foi crescendo sem parar.

-E não era muito complexo explicar coisas tão confusas para duas culturas diferentes?

Sim, terrivelmente difícil, a maioria das vezes depois de explicar alguma palavra eu via nos olhos dos outros essa expressão de “que coisa estará falando este cara?” e uma situação que era engraçada passava a ser chata depois da quarta ou quinta explicação.

Foi então que pensei em me auxiliar com as imagens do buscador do Google para representar cada situação ou palavra.

Colocava o buscador em Argentina e capturava as imagens da palavra e logo mudava para Brasil e fazia a mesma coisa, como as imagens geralmente aparecem ordenadas pela maior quantidade de situações em que elas aparecem, eu tinha a garantia que em casos de definições dúbias ou com mais de um significado o algoritmo do Google me apresentaria primeiro as imagens representativas mais populares em cada idioma.E como se diz que uma imagem vale por mil palavras, o método foi dando certo.

-E ai já não dava para continuar anotando no caderninho.Claro, entrou em cena o processador de textos Word e depois com o começo da popularização da internet o Orkut.

-As redes sociais

Usava o Orkut por que era muito popular no Brasil, sendo que também tinha conta noFacebook por ele ser muito mais popular no resto do mundo e especialmente na Argentina onde tinha minha família, amigos e colegas de estudo e trabalho.

Depois de um tempo o Facebook se popularizou e eclipsou até fazer desaparecer ao Orkut do Brasil.
Ai terminaram as oscilações e passei todo o acervo para uma página do Facebook chamada de HISPANOLUSO onde não só mostrava para o público de qualquer idioma as palavras senão que obtia deles um “feedback” na forma de “curtidas”, comentários, perguntas e críticas.

Assim também comecei a receber sugestões para publicar palavras, anedotas e causos de muitos argentinos, uruguaios, chilenos, colombianos e espanhóis morando em Brasil como de Brasileiros morando em países de fala castelhana. Usando meus conhecimentos de programação criei um acervo para manter uma espécie de “lista de espera” de palavras para publicar e a usar o Facebook como uma vitrine onde publicar e difundir cada nova publicação.

-A publicação direta na internet também abriu o caminho para conteúdos mais multimediais

Sim, os vídeos, animações e áudios foram fundamentais para puder explicar coisas que somente com as imagens eram impossíveis ou muito complicadas.

Por exemplo o caso da turista brasileira em Buenos Aires que pergunta para o taxista: quanto custa a corrida? o taxista argentino ouviu cojida (a pronuncia da rr em este caso e igual da J e cojida na linguagem vulgar da Argentina significa “transar”) dizem que taxista assombrado respondeu “para isso tu não tens que pagar nada”.

  • Já que falamos dos objetivos, que coisa é isso do “Portunhol perigoso” e como o Projeto Hispanoluso pretende combater seus efeitos?

Quando se aborda o tema do portunhol o primeiro que vem a tona e sua cara “engraçada”, quase todas as confusões geradas por seu uso são de dar risada.

Mas uma olhada mais profunda nos revela que o acúmulo constante (e não percebido) destes erros de compreensão termina formando falsas ideias e conceitos errados, que em personalidades com propensão para isso terminam aflorando como preconceitos na primeira oportunidade que aparecer.

E os preconceitos já todos sabemos o que produzem.

A forma de prevenir e combater isso é o conhecimento dos fatos, riscos e o tomar cuidado na comunicação entre o espanhol e o português.
O uso do Portunhol vai continuar a se propagar sempre que o mundo continue com a tendência a ter viagens cada vez mais baratas e troca de experiências e conhecimentos entre países de fala castelhana e os de fala portuguesa.

O que o Projeto Hispanoluso se propõe é através de um enfoque divertido, advertir que o portunhol é como a eletricidade, “não devemos temer-lhe, mas sim usar sempre com respeito e cuidado”.

O projeto Hispanoluso visa a difundir este cuidado e para ter a mesma ATENÇÃO quando usamos o portunhol que quando nos tentamos comunicar com alguém de uma cultura e linguagem bem diferente da nossa.


  • Você como administrador e participante de vários grupos de estrangeiros no Brasil e de Brasileiros no exterior já deve ter conhecido vários exemplos da geração de preconceitos pelo desconhecimento destas ciladas na comunicação, pode citar alguns deles?


Uma guia de turismo brasileira que falava um espanhol quase perfeito diz para um grupo de turistas da Argentina o seguinte: “Aquella iglesia fue TOMBADA por el municipio de la ciudad”(Aquela igreja foi tombada pela prefeitura da cidade).

Errou só em uma palavra, tombada não existe em espanhol e o mais parecido a ela nessa língua é TUMBADA que significa algo assim como demolida ou derrubada. Ela ficou orgulhosa da prefeitura da sua cidade e os turistas foram embora pensando: “que desastre esta prefeitura eles não cuidam seu patrimônio histórico”

Outra: Nas minhas aulas de Artes Marciais os alunos são todos brasileiros, quando apareceu a oportunidade de viajar para Buenos Aires na Argentina para comparecer a um seminário eu tentava entusiasmar eles dizendo que além das práticas da Arte a cidade é bem gostosa de conhecer e que os “portenhos” (habitantes da cidade de Buenos Aires) adoravam aos brasileiros e tratavam eles melhor do que se tratam entre eles mesmos.

A maioria não acreditava, pensavam que seriam maltratados e que a rivalidade promovida pelo futebol se estendia a todas as relações com os brasileiros.

Eu tentava explicar que na Argentina nã existiam as piadas de brasileiros (como as famosas piadas de argentinos muito difundidas no Brasil tudo) mas eles continuavam a não acreditar em mim.

Tivemos que viajar e experimentar diretamente para que finalmente concordassem com o fato que “o argentino gosta muito do brasileiro e trata-o muito bem”

De argentinos no Brasil: O campeonato mundial de futebol do ano 2014 no Brasil foi um divisor de águas para muitos argentinos que moravam há muitos anos no Brasil alguns deles perfeitamente integrados na sociedade brasileira e inclusive com famílias mistas.

Aos poucos comecei a ouvir deles “estes brasileiros são todos iguais”, “eu realmente nunca me senti adaptado”, “te tratam bem quando você é turista, mas quando vier a morar a coisa muda para pior”, “eles realmente nos odeiam” e mais frases assim.

Não havia jeito de tentar razoar com eles (e olha que era gente que eu conhecia e sabia da sua inteligência e conhecimento) parecia que de pronto “um mostro” oculto dentro deles durante anos, havia tomado o controle de seus atos e sentimentos.

Foi nesse momento que comecei a perceber uma relação entre o que acontecia e frases que tinha escutado com anterioridade do tipo: “vai fazer pizzas no Brasil que eles não sabem, é um negócio seguro”, “os brasileiros não gostam das artes marciais tradicionais por que não são nem sérios nem disciplinados, lá é muito quente, por isso eles são muito ruins nas matemáticas e em todas as ciências abstratas” e não estou inventando nada, isto e coisas parecidas me foram ditas (e ainda acontece) muitíssimas vezes.

Depois também apareceu o outro lado, brasileiros torcendo fervorosamente a favor da seleção alemã (que lhes havia infringido uma vergonhosa goleada só uns dias antes) na final disputada contra a Argentina.

Muita gente falou que isso era somente coisa dos meios de comunicação que exacerbavam a rivalidade entre os “lideres do futebol sul-americano”, como forma de vender mais suas transmissões de partidas e propagandas relacionadas com o futebol mas eu ainda acredito que existe algo mais que isso.

Parece que não vale a pena razoar, apresentar números e fatos, a coisa não se resolve com lógica por que dentro deles está agindo o famoso “mostro do preconceito”.

É por isso que eu falo de “portunhol perigoso”

-O que é o que mais me agrada e o que mais me desgosta dos brasileiros

Por tudo o falado antes, eu cheguei a conclusão que embora sejam inegáveis (e bem-vindas) as diferenças culturais entre o Brasil e seus vizinhos e outros povos é muito ruim e errado generalizar.
Eu posso comentar que sempre fui bem recebido e tratado, que não tive grandes dificuldades para me integrar a sociedade brasileira, que tive sim algumas decepções decorrentes das minhas expectativas (muitas vezes também baseadas em fundamentações e crenças erradas) mas isso não deixa de ser só “minha experiência pessoal” e que não pode ser estendida a todos.
Tanto lá no meu país natal com aqui no Brasil encontre gente generosa, inteligente, prestativa, carinhosa, burra, educada, brutal, desagradável, fanfarrões, confiáveis e mentirosos, “as pessoas são pessoas” seja de onde for que viessem e onde estejam hoje. Tem gente com a que me encanta falar e compartilhar momentos e também gente que não gosta nada de mim nem das minhas ideias e companhia.

-O que vem por ai

Espero poder unir o útil ao prazeroso e muitos campos de meu interesse numa só experiência que abranja: A experimentação de novas ferramentas de comunicação virtual (documents, hangouts, drive, skype, acrobat, etc.) com novos conceitos dasrelações tecnológicas (redes sociais, compartilhamento, inteligência coletiva, wiki, usabilidade, interatividade, etc.) com outras ideias vindas das antigos métodos de ensino das Artes Marciais tradicionais (disciplina, esforço, responsabilidade, autogestão, autoconhecimento, aprender ensinando, desenvolvimento da atenção e da concentração)tudo dentro de um conceito amplo que pode se resumir como “Oficinas virtuais de treinamento” com a finalidade de ajudar a explicar, difundir e ampliar o conceito do perigo do uso indiscriminado do portunhol nas relações cruzadas entre falantes nativos do espanhol e os da língua portuguesa.
E para puder fazer mais leve esta proposta tão séria, não esquecer do importante que é provocar risadas e sorrisos com cada novo “descobrimento”.

Para quem quiser mais informação deixo os seguintes links:

Página do Hispanoluso no Facebook: www.facebook.com/hispanoluso

Perfil de professor no VerbLing: https://www.verbling.com/teachers/hispanoluso


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Charles Chery
2018年7月20日